Para que serve a paciência?

Vamos falar de um tema ou de uma qualidade que é essencial para termos uma vida, se não feliz, pelo menos com pouco sofrimento. É a paciência. E confesso que é algo que busco com frequência, mas que não é fácil de se praticar.

Pessoas impacientes quase sempre são inquietas, ou agitadas por natureza. Fazem coisas de modo rápido e não têm muita “paciência” com pessoas mais lentas. Não é que as pessoas mais lentas estejam erradas, mas são as impacientes que querem tudo de forma muito veloz. Por isso, digo que quem é impaciente sofre em demasia. Porque o tempo é igual para todos, mas quem sofre de impaciência acredita que está sendo penalizado pelos deuses, especialmente quando as coisas não acontecem no tempo que desejam.

A paciência é uma virtude que nos ensina a cada instante que não somos donos do tempo. Ela ajuda também na compreensão de que alguns momentos precisam ser refletidos e que a espera é, muitas vezes, melhor que o final. Lembremos então do Natal quando ainda éramos crianças. Esperar chegá-lo, ainda que impacientes, fazia-nos sonhar e sentir um imenso frisson com a expectativa de sua chegada.

Para aqueles que acreditam em Deus, a paciência mostra o quão importante é a espera do tempo, não o nosso, mas o de Deus. Muitas vezes desejamos algo tão ardentemente e esquecemos que nem tudo aquilo que esperamos impacientemente é para o nosso bem. Quantas vezes aguardamos por uma viagem e ela não acontece, ou porque algo de ruim aconteceu posteriormente ou porque algo bem melhor que ela também surgiu após a espera desesperada.

Ser impaciente é querer passar o carro adiante dos bois, como dizem os antigos. Porque tudo tem o seu tempo. É o que está escrito no capítulo três do livro Eclesiastes, da Bíblia. Se você ainda não leu, experimente a leitura e veja como é importante buscarmos essa virtude tão importante.

A paciência nos mostra também que em alguns momentos conseguiremos realizar ações e tomar atitudes, especialmente quando elas estão ao nosso alcance; da mesma forma, em outros momentos, descobriremos que o melhor é aguardar, principalmente quando as decisões ou as atitudes não dependerão de nós e sim dos outros. É seguir a máxima de Epicteto, no seu Manual para a Vida.

Ser paciente é entender que a vida é feita de fases, umas boas outras ruins, mas que elas irão passar. Com o tempo vamos descobrindo que a vida não acontece ao nosso bel-prazer, de modo especial quando nos surgem as contingências, que podem ser favoráveis ou não. Por isso, que tenhamos sabedoria para distinguir o momento de agir do momento de esperar. Paciência!

Por que gosto do Rio de Janeiro?

Prometo não responder dizendo que o Rio é uma cidade maravilhosa, pois todos sabem que é. Mas o Rio de Janeiro tem algo mais que me encanta, além dos seus belos cartões postais, e é isso que eu vou tentar expressar aqui.

O encanto pelo Rio de Janeiro começa antes mesmo da viagem. Quando você diz a algumas pessoas que vai viajar pra lá, chovem os comentários negativos: “Você tá ficando doido”; “Deus me livre viajar para o Rio”; “Toma cuidado, porque lá é muito violento”; “Você não tem medo”? Penso que dois tipos de pessoas fazem esses comentários – as que não conhecem o Rio e os medrosos por natureza.

Não estou negando que o Rio tenha violência, aliás toda capital tem, umas mais outras menos. Se deixarmos de viajar para algum lugar bonito por causa da violência, melhor nem sair de casa. Pois bem, mas vamos falar de coisas boas. A primeira das qualidades do Rio é mostrar às pessoas que mesmo com tantos problemas, há sempre outro lado que é positivo. Todos nós somos assim – bons e ruins. O que precisamos é deixar o lado bom florescer, alimentando-o mais que o ruim. É como aquela flor que nasce no asfalto. Tudo é cinza e de repente surge o verde, para mostrar que nem tudo está perdido.

Além disso, o Rio de Janeiro me encanta pela sua natureza, contrapondo ao humano, que são justamente os prédios, o asfalto, o cinza, o sem vida. A área verde do Rio seduz, seja com os seus morros, suas árvores, sua vida. Sem falar nas praias, e em todas as suas belezas naturais.

Quando vou ao Rio, aprecio com muito prazer os botecos, o jeito descontraído das pessoas, que mesmo após um longo dia de serviço, colocam o blazer e a gravata na cadeira e ficam em pé degustando um chopinho e conversando fiado. Gosto do metrô com a sua diversidade. É muito barulho, muita gente, muita correria, mas isso também tem muito a ver com vida, com disposição, com trabalho, com luta. Andar de metrô pelo Rio me tira da tranquilidade do carro na cidade pequena, me faz mover, porque se eu não o fizer, alguém fará por mim, me levando junto.

É lógico que as idas ao Rio de Janeiro são esporádicas e talvez por isso, eu não veja de perto os seus problemas, no entanto, exatamente por isso, é que a cidade maravilhosa desperta em mim esse encanto – ver a vida pelo lado positivo. Poder ver ruas, espaços, lugares que só via pela televisão, e que eu nunca imaginava ver um dia – o Cristo, os táxis amarelos, o Maracanã, o bondinho, a Lapa.

Gosto do Rio de Janeiro não só por causa do bolinho de feijoada, do Leblon, Copacabana, Ipanema, Barra, da Lapa ou dos barzinhos de Botafogo. Gosto do Rio porque ele me propicia vários momentos relevantes. O esforço para que eu pudesse estar ali, o sentido das conquistas, o otimismo, a possibilidade da experiência, a oportunidade de ver meu time de coração entrar em campo no Maracanã, a cena indescritível que vive na minha memória, quando desço do metrô rumo ao estádio, enfim, quando estou no Rio, mudo de ideia e acredito sinceramente que o dinheiro traz felicidade.

Por que as pessoas furam as filas?

Não é de hoje que se diz que o brasileiro é malandro, ou que gosta de levar vantagem em tudo. Não posso afirmar que isso é verdade nem tampouco que é cultural, porque nunca pesquisei a fundo sobre o tema, apesar de algumas leituras realizadas nessa área. Da mesma forma, dizer que o brasileiro é assim ou assado, acaba generalizando ou rotulando uma população inteira como esperta ou que age sempre de má fé.

Furar a fila é “algo feio”, como dizem os pais às crianças. Não deve ser feito, porque quem chegou primeiro deve ser atendido antes de quem chegou depois. Mas nem sempre isso acontece, e muitas vezes não percebemos o que há por trás dessa mania atribuída ao brasileiro de querer ser mais esperto que o outro.

Vamos lá. Para início de conversa, o indivíduo que fura filas só consegue alcançar seu êxito quando as demais pessoas que estão na fila permitem. E isso diz muito da passividade do brasileiro. As pessoas não querem brigar e então essa cordialidade, tão bem tratada por Sérgio Buarque de Holanda em sua obra Raízes do Brasil, mostra um pouco daquilo que somos: afáveis, bondosos, emotivos, amigáveis.

Exemplo disso acontece quando o governo toma medidas que afetam, de certa forma, a população em geral. Cria-se um novo imposto. Aumenta o preço da gasolina. Altera a legislação previdenciária. O que a população faz? Nada. Reclama, resmunga, murmura, mas nenhuma ação é tomada. Assim é o brasileiro: passivo. Em outros países, até mesmo próximos ao nosso, as reações são imediatas – protestos, revoltas e greves. Existe uma movimentação contrária ao que foi determinado pelo governo. Se vai funcionar ou não é outra questão, mas a população, ou grande parte dela, demonstra indignação.

Outro ponto importante, e que é passível de discussão nas filas furadas, trata da falta de respeito. O problema de se furar a fila não deve ter o seu foco na questão do direito de quem chegou primeiro, mas na falta de respeito com os demais que chegaram antes. Se eu respeito o próximo, vou entender que tanto para ele quanto para mim a urgência será a mesma. E mais, se existem regras, ainda que não formalmente escritas, elas precisam ser cumpridas. Isso também acontece com certa frequência em supermercados, quando os caixas rápidos, destinados a pessoas com até dez produtos, são ocupados por pessoas com mais de dez itens, que insistem em permanecer naquele local. Ou ainda, quando alguém estaciona o veículo em vaga destinada a deficientes ou idosos.

 Na verdade, quando falamos de furar filas, estacionar em locais proibidos, não usar a máscara (em tempos de pandemia), ou cometer qualquer outro tipo de transgressão, estamos esquecendo ou deixando de lado um assunto que é muito mais importante que as pequenas infrações, a Educação. Educação com E maiúsculo, porque é o que mais nos falta no país.

A partir do momento que entendermos que furar uma fila não é mais questão de esperteza e sim de falta de educação, conseguiremos compreender também que o respeito que não temos ao nosso semelhante e a nossa passividade diante de tudo que nos acomete, são da mesma forma uma grave consequência da nossa alienação, seja ela no cenário político, econômico, e principalmente no social.

Você é feliz no trabalho?

A maioria de nós passa pouco mais de um terço da vida no trabalho, digo isso principalmente para aqueles que possuem algum vínculo empregatício. Desse modo, se considerarmos que um outro terço da vida passamos dormindo, nos sobram ainda um terço para outras atividades, ou para sermos felizes.

Nesse sentido, se estamos infelizes no trabalho, quer dizer que a infelicidade estará presente em um terço de nossas vidas. Façamos os cálculos. Segundo o Banco Mundial, em 2017, a expectativa de vida do brasileiro era em torno de 75 anos. Dividindo-se esse número por três, teremos 25 anos. Lembrando que passaremos outros 25 anos dormindo, só nos restarão apenas 25 anos para sermos felizes. É muito pouco não acham?

Outrossim, se só começamos a ser felizes na sexta-feira, porque não trabalharemos no sábado nem no domingo, a situação também é grave, pois dos sete dias da semana, passaremos cinco sendo infelizes e apenas dois usufruindo de bons momentos. É também muito pouco para quem acredita que a felicidade está no destino e não na viagem.

No entanto, a situação não é tão simples como possa aparentar. Nem sempre vamos fazer o que gostamos, mas necessitamos gostar daquilo que fazemos. E se ainda assim não for possível, precisamos mudar…de chefe, de setor, ou mesmo de emprego. Porque quando estamos infelizes, contagiamos os outros, e o pior, carregamos a tristeza conosco por onde passamos, principalmente para o nosso lar.

Existe uma saída? Sim. Talvez até mais de uma. A primeira delas é compreender que há pessoas boas e ruins nas empresas, e que cabe a nós adaptarmos a elas, afinal, a mudança deve partir de dentro pra fora. Mas se temos a crença de que todos os trabalhos não nos satisfazem, existe também a possibilidade de abrirmos o próprio negócio. Porém, para quem não gosta muito de trabalhar, ser empreendedor implica em dedicação, esforço e riscos, que muitos não estão dispostos a correr.

Outra possibilidade é a busca do autoconhecimento. Se nos conhecemos interiormente, sabemos as nossas motivações, daquilo que gostamos ou daquilo que não temos muito habilidade em fazer, enfim, temos a oportunidade de realizar algo que nos traga paz, tranquilidade e prazer, pois, como já dito, esse trabalho vai consumir uma grande parte do nosso tempo, e de nossas vidas também.

Nessa perspectiva, três pontos devem ser salientados, se quisermos entender um pouco mais de felicidade. O primeiro é que ela não necessariamente estará atrelada ao dinheiro. É enganosa a ideia de que as pessoas só trabalham por uma recompensa financeira. A segunda é que a felicidade vem antes de qualquer coisa, trabalho, família, lazer ou sucesso. Quem está feliz irradia felicidade por onde passa. A terceira trata da felicidade no tempo presente. É no agora que precisamos estar felizes e não no futuro, na dependência de que algum evento ocorra ou não. Nem tampouco no passado. Quando a felicidade está no passado, ela muda de nome e se chama saudade.

Que possamos então estar felizes – hoje, amanhã e sempre. E que essa felicidade seja onipresente!

Qual é o contexto?

Uma das minhas respostas preferidas quando alguém me questiona algo é a seguinte: “Depende”. Depende de que? Do contexto, das circunstâncias.

Você é de direita ou de esquerda? Depende. Há pontos positivos em ambas as direções, e negativos também. Se formos falar de algo relacionado à economia, precisamos entender o contexto da pergunta, porque corremos o risco de que a resposta seja retirada do contexto correto, e aí o que era apenas uma simples opinião se torna algo polêmico.

Vejamos outros exemplos. Seu filho chega em casa e diz que tirou uma nota 10 na prova de Matemática. Você certamente ficará feliz. Mas quanto valeu a prova? Se valeu 10, excelente! Se valeu 100, foi uma péssima nota. O que vale então? O contexto. É assim que vemos pessoas, parte da imprensa, algumas empresas, pseudos pesquisadores, repassarem informações que, se forem analisadas em determinados contextos, podem ser consideradas boas ou ruins.

As circunstâncias em que o fato ocorreu, importam bastante quando buscamos a verdade. O que pode ser bom para mim, pode não ser para você. Outro fator importante e que acontece no nosso dia a dia é a generalização. Todos nós já passamos por isso, e em algum momento ouvimos frases do tipo: “A maioria dos políticos é desonesta”. O que é a maioria? Cinquenta por cento e mais um? Como podemos contabilizar isso?

E assim vamos generalizando, e acreditando em discursos calorosos, em números fantasiosos, em falas demagogas, que até nos encantam, mas nos enganam, porque se quisermos conhecer a realidade, necessitaremos do esforço da leitura, da determinação dos estudos e da busca pelo conhecimento, para conseguirmos compreender que as frases e números fazem parte de outro contexto, que visa ludibriar e persuadir os ouvintes e leitores.

Esse deveria ser o principal motivo para que sentíssemos prazer em estudar: Saber. Entrar numa loja e saber calcular os juros de um eletrodoméstico quando a compra for a prazo. Quem garante que os juros praticados são os mesmos da propaganda? Saber que algumas pesquisas científicas são patrocinadas por grandes organizações empresariais, que já determinam de antemão os resultados delas. Saber que os produtos mais caros do supermercado ficam nas prateleiras à altura dos nossos olhos. Saber que pensamentos positivos não necessariamente atraem coisas positivas, a não ser em alguns livros de autoajuda.  Saber que empresas precisam vender e farão de tudo para alcançar seus objetivos, até mesmo aproveitar de nossa falta de conhecimento para adquirir seus produtos.

Saber é importante, ainda que não saibamos quase nada da vida. Quando buscamos o saber, saberemos entender o poder do contexto, conheceremos as falácias dos discursos, as intenções dos números, a ênfase em determinadas palavras, a publicidade de algumas pesquisas.

Porque quando alguém lhe fizer uma pergunta, não responda sem saber, pense antes de fazê-lo, pois a sua resposta vai sempre depender de algo, especialmente daquilo que você sabe sobre o assunto. Por isso, alerto que nem sempre o contexto estará presente no texto ou naquilo que alguém nos fala. E quando isso acontece, sabem o que faço? Eu contesto!

Quando você será o protagonista?

Todos nós queremos ser protagonistas na vida, tanto na pessoal como na profissional. No entanto, ser protagonista nos exige algumas atitudes que nem sempre vamos estar dispostos a tomá-las.

No dicionário, protagonista é o personagem principal de uma narrativa. É quem mais aparece, não porque queira aparece, mas isso acontece de forma natural, afinal, quem protagoniza algo é o principal agente das ações. Ele escolhe agir, assumindo os riscos, mas também as possibilidades de êxito.

Muitos de nós escondemos atrás de atitudes ou também de nossas inações, tornando-nos antagonistas, ou seja, criando em nossas mentes adversários que não existem, o que nos impede de sermos protagonistas. Explico. Quando tomamos uma atitude que vai ao contrário daquilo que pensamos ou acreditamos, nos tornamos refém do sistema. Qual o sistema? O da padronização, o de fazer o que os outros querem. Se você opta por mudar, porque essa mudança vai lhe trazer benefícios, mesmo que acarrete em críticas de pessoas que você não ama, estará agindo em conformidade com o que pensa ou acredita, permitindo assim protagonizar algo que lhe é ou será importante, assumindo as responsabilidades pelas consequências, porém, tendo a certeza que o fez sem se importar com a opinião alheia.

Da mesma forma, quando falamos de inação, percebemos que o não agir é também uma escolha. Se temos a oportunidade de agir, de optar, de escolher, e abdicamos disso, deixando que o medo ou o tempo façam as escolhas, nos tornamos antagonistas, permitindo que o antagonismo dos fatores externos se apresente como protagonista de nossas vidas.

Parece difícil de entender, mas não é. Quando as decisões de sua vida partem mais do externo que do interno, ou seja, quando tudo o que acontece no seu dia depende mais dos outros que de você mesmo, é porque você consentiu perder seu protagonismo, afirmando que outras oportunidades sempre vão aparecer. Sim, concordo. Elas vão aparecer, mas parece que o tempo está passando, e a cada dia essas possibilidades vão reduzindo, não porque você não mereça, mas porque postergar se torna cômodo e essa comodidade vai nos trazendo a sensação de que a qualquer hora, num estalar de dedos, vamos mudar de vida, nos tornando protagonistas.

Protagonizar é agir, é não só tomar as decisões, mas fazer, realizar, construir, executar, ou como se costuma dizer no mercado de trabalho, ter proatividade. Podemos simplesmente tomar a decisão, mas não fazer nada com ela. Há pessoas que se tornam admiradoras das outras pelo protagonismo que elas assumem, e abrem mão de ser o astro principal de suas vidas.

Esperar é o verbo preferido dos que procrastinam, dos inativos por opção, daqueles que aguardam uma intervenção divina, ou que alguém faça algo por eles. E aí quando você chega ao final da vida ou mesmo deste texto, esperando também uma resposta que alivie sua dúvida, ou seja, por que até hoje você não assumiu o protagonismo de sua vida, eu te respondo: Agora!

Quem quer ser pobre?

Acredito que ninguém queira ser pobre. Todavia, há muita gente se dizendo pobre por aí. Eu disse “dizendo”, porque o discurso é um, mas a realidade é bem diferente.

Pobre que é pobre não se vangloria de ser pobre. Ele não enaltece sua pobreza, contando a todos como é ou está a sua situação econômica. Sabem por quê? Porque o verdadeiro pobre tem vergonha de sua condição. Ele não gostaria de sê-lo, mas é.

Mas se ninguém quer ser pobre, por que alguém se diz ser? Porque o discurso agrada. Reparem que, geralmente, quem tem uma boa condição financeira é aquele que se intitula pobre, mesmo não desejando a pobreza. Na realidade, algumas pessoas procuram desculpas para não tomar decisões, e se justificam dizendo ser pobres. Não praticam atividades físicas numa academia, não compram um computador, não matriculam o filho numa escolha melhor, não viajam a lazer, não cursam uma faculdade, não trocam de carro, enfim, não tomam nenhuma atitude porque lhe faltam dinheiro, ou melhor, porque são pobres. Vocês conhecem alguém que tem piscina em casa e se diz pobre?

Pois é. Algumas dessas pessoas têm o péssimo hábito de desmerecer tudo aquilo que o outro conquistou a duras penas. São praticantes do discurso: “eu bem que gostaria, mas não posso, porque sou pobre”. Elas se passam por vítimas, praticando o conhecido coitadismo.

É sempre bom lembrar que pobre, na acepção da palavra, não tem carro, não viaja a turismo, não tem piscina em casa, aliás, ele nem casa tem. O pobre real é desprovido de diversos recursos, como alimentação, vestuário, cuidados de saúde, segurança, internet, lazer etc.

Por isso, quando alguém lhe disser que é pobre, corrija-o ou alerte-o para o significado da palavra “pobre”. Certamente, para aqueles que não a usam com segundas intenções, vale a pena chamar a atenção, pois talvez eles não tenham a dimensão do que é ser pobre, especialmente num país tão desigual socialmente como é o nosso.

Quanto àqueles que usam a palavra “pobre” nos seus discursos, utilizando-se desse artifício para ludibriar os outros, fica um alerta maior ainda. Reparem que essas mesmas pessoas usam outras palavras para se autodefinirem, visando distorcê-las, deixando a entender que são coitadas e que por isso merecem seu apreço. Há pessoas que se dizem negras sem ser, mormente quando se trata do ingresso em universidades públicas via sistema de cotas raciais. Tem gente se dizendo pobre para conseguir auxílios governamentais, bolsas de estudo e outros tantos benefícios.

São essas e outras tantas pessoas, praticantes do coitadismo, para receber algum tipo de vantagem. Na realidade, elas não querem estar no lugar dos pobres, negros, homossexuais, idosos, doentes, ou quaisquer outros tipos de pessoas que sofrem algum tipo de preconceito. O que elas desejam é conquistar a compaixão e a confiança dos outros, visando conseguir algo para si, que será usado em benefício próprio.

Repito. Ninguém quer ser pobre! Se conhecer alguém que queira ser, desconfie e questione, pois tenha a certeza de que o discurso é muito bonito, mas a intenção não é.

Quando vamos tirar as máscaras?

Um dia a pandemia do corona vírus vai terminar e enfim retiraremos nossas máscaras de forma definitiva. A vacina nos trará de volta a liberdade e a sensação de alívio por não termos mais que usá-las. Será mesmo?

As máscaras nos protegem dos outros, mas também de nós mesmos. Muitos continuarão usando máscaras, porque elas já eram usadas antes mesmo do covid-19. Escondemos dentro de nós alguém que não existe mais, que não mostra o seu rosto e que prefere camuflar sentimentos, fingir boas ações e que nunca permite ser descoberto, porque opta por desmerecer o sucesso alheio, em vez de buscar o seu próprio brilho.

Precisamos tirar as máscaras para respirar um pouco de ar puro e enxergar que a vida não é feita só de problemas, de contingências. Ao olhar um jardim verde, com flores e espinhos, muitos de nós preferimos acreditar que o mundo todo conspira contra o que pensamos e fazemos. Mas sabemos no fundo que não é verdade, mas também não temos coragem para buscar as mudanças e viver uma vida mais digna.

Quando usamos máscaras a nossa voz se torna diferente, muitas vezes irreconhecível, porém, nossos ouvidos continuam abertos, e são eles que precisam ser usados para ouvir mais o outro, para entendê-lo e compreendê-lo. As pessoas necessitam de nós e nós também precisamos delas. A máscara nos proporciona escutar mais e falar menos. Não é à toa que nascemos com dois ouvidos e uma boca.

 No entanto, continuamos a acreditar que as máscaras nunca cairão, porque se caírem a nossa verdadeira face será exposta e então descobrirão quem realmente somos. Aliás, talvez nem nós mesmos saibamos quem realmente somos e por isso preferimos utilizar as máscaras. A dúvida nos traz o alívio de que talvez não sejamos tão maus assim, nos permitindo colocar a culpa dos nossos erros em outras pessoas ou mesmo em Deus. A certeza pode trazer à tona verdades que serão mais bem administradas utilizando-se a máscara.

Quando a pandemia acabar, certamente muitas coisas estarão diferentes, na política, na economia, na saúde, na educação, mas e em nós? O que terá mudado? Talvez quase nada, principalmente para aqueles que já usavam máscaras, e que assim como um camaleão, vão se adaptando às novas realidades. Daqui mais um tempo tudo voltará ao normal, e aos poucos vamos nos esquecendo de tudo que aconteceu…

E algumas pessoas não abrirão mão de usar suas máscaras – hoje, amanhã e sempre – porque mesmo com o fim da pandemia, elas continuarão doentes.

Por que os nossos sonhos mudam?

Era uma vez um menino, que na sua infância, sonhava em ser jogador de futebol. Não pensava no dinheiro, e sim porque amava jogar bola. Naquela época, jogador de futebol não era tão famoso, nem recebi os altos salários de hoje. A oportunidade não apareceu ou se apareceu ninguém contou pra ele ou deu importância para o seu sonho. Certo é que o tempo passou…

O menino cresceu e ainda na adolescência sonhava em morar fora, não precisava ser fora do país, mas num lugar diferente da sua cidade. Ele queria crescer, ser um profissional excelente (no início ele queria ser advogado, depois publicitário), ganhar muito dinheiro, ter uma bela casa e um carro do ano. Quis o destino que ele se formasse em Administração, mesmo ele tendo dúvidas se ia ao baile de formatura de um amigo na véspera da prova do vestibular, e depois de largar o curso de Educação Física e não passar no vestibular para Comunicação Social em Belo Horizonte.

Já na graduação em Administração ele sonhava em ser um grande executivo, CEO de alguma multinacional ou mesmo um grande empreendedor em qualquer lugar. Nunca foi! Andou por caminhos diferentes, sendo que um deles foi trancar a matrícula do curso e tentar novamente o curso de Direito. Não teve êxito! Mas também sem estudar, difícil alguém ter, não acham? Na época ele não pensava assim, mas seus sonhos nunca se realizavam, talvez porque eles não fossem levados a sério nem mesmo por ele, ou quem sabe porque aqueles sonhos não fossem tão importantes como achava que fossem.

Outros concursos vieram e ele passou em alguns, mas na maioria fracassou. Descobriu que são os fracassos que pavimentam os caminhos do sucesso, e que perder faz parte da vida, desde que se aprenda com os erros. Ele nunca quis casar, talvez porque tenha vivido experiências negativas na própria família. Era do tipo que acreditava que se fosse para entrar na vida de alguém, seria para melhorar a vida da outra pessoa, para fazê-la feliz e não para trazer problemas.

Por coincidência, hoje encontrei aquele jovem, que hoje não chega a ser um velho, mas que podemos chamar de senhor, e perguntei a ele o que tinha aprendido com a vida. Ele disse que hoje não mora na casa dos seus sonhos, não tem o melhor carro, não é rico e nem fez de sua vida profissional um caso de sucesso. Mas que era feliz assim mesmo, porque tinha uma casa própria e confortável, um bom carro (já quitado) e um casamento muito feliz.

Então perguntei a ele, antes de me despedir, “e os seus sonhos”? Ele respondeu: “Uma das coisas de que mais me orgulho é não ficar olhando para trás e pensando: E se tivesse sido diferente? E se meus sonhos tivessem sido realizados? Descobri que jamais vou saber a resposta e nem quero, porque o ‘se’ não existe e nunca vai existir, e porque quanto mais vivemos no passado menos aproveitamos o presente. E a felicidade está no presente, no agora! Você concorda”?

Disse ‘sim’ me olhando em frente ao espelho…

Por que praticar o desapego?

Se “a única constante é a mudança”, conforme previa Heráclito de Éfeso, por que nos apegarmos tanto a algo ou a alguém?

Quando somos muito jovens nos apegamos sobremaneira a coisas e pessoas, que num breve espaço de tempo já não nos são mais interessantes. Os colegas de escola se mudam e seguem a vida assim como nós. Objetos como brinquedos, roupas e livros perdem o valor porque mudamos e aprendemos a nos desapegar deles, porque eles não possuem mais a importância que tinham.

Assim deveria continuar por toda a vida, mas alguns bens e pessoas parecem despertar em nós um interesse maior e quando percebemos já estamos tão apegados que não conseguimos imaginar a vida sem eles. Como objeto o dinheiro parece ser o que mais temos dificuldades em desapegar. Por quê? Porque é o dinheiro que nos garante a sobrevivência. Mas de quanto dinheiro precisamos para sobreviver? Com certeza bem menos do que acreditamos.

O dinheiro nos proporciona momentos de felicidade e pode trazer-nos a tranquilidade que precisamos para realizar os nossos projetos de vida. No entanto, talvez de forma inconsciente, abrimos mão também de uma vida mais tranquila, ainda que com menos dinheiro, para ter uma vida atribulada com mais dinheiro. Quando nos apegamos a ele, o caminho parece não ter fim, como se caminhássemos no deserto. Fazemos contas, adquirimos bens, compramos algo para melhorar nossa autoestima, e quando percebemos o dinheiro não foi suficiente, e no mês seguinte temos que trabalhar mais, porque o dinheiro nunca sobra, sempre falta.

Ao transferir o dinheiro para os bens, nos apegamos também aos objetos. A caneta que fiz minha primeira prova na faculdade, a carta de amor da primeira namorada, a roupa de quadrilha da filha que já casou e tem seus filhos, o conjunto de chá empoeirado na sala esperando uma visita importante, o cartão postal do amigo que viajou à Europa e te mandou de lembrança, o livro que você não gosta, mas que ganhou de alguém que já se foi, a camisa já puída e sem uso que ganhou da amiga que foi a Porto Seguro com o famoso dizer “Estive na Bahia e lembrei de você”.

São tantos bens, coisas e objetos que fazemos questão de manter em casa, entulhando as gavetas e a nossa vida, que nem nos damos conta que eles mostram quem nós somos: pessoas que acumulam, que não desapegam. Tem gente que diz que não é apegada, que não tem muitas coisas, mas se fosse mudar de casa, certamente precisaria de uns dois caminhões para transportar tantos objetos, a maioria deles inútil.

Há pessoas que se apegam a pessoas. É o ex-namorado, a ex-esposa, aquele namoro que poderia ter dado certo, aquela pessoa que não tive coragem de me declarar, enfim, nos apegamos ao que já passou e que não tem mais volta. Apegamos também ao futuro, como se ele tivesse data certa para acontecer. Não tem! O melhor a fazer é viver o presente, sem se preocupar em conquistar bens, afinal de contas, como diz um amigo meu: “Caixão não tem gaveta”, então não vamos levar nada dessa vida.

Aprendi que o desapego é a melhor forma de se viver a vida. Quem é desapegado sofre menos, porque aproveita aquilo tem, sem se preocupar com aquilo que não tem. Tem gente que se apega a tudo – bens, beleza, juventude, lugares – e quando percebe que nada é para sempre, vive em sofrimento, o sofrer por tudo aquilo que já foi um dia.

Dizem que a quantidade de chaves que carregamos nos bolsos é inversamente proporcional à nossa felicidade. Descobri no desapego então a fonte da felicidade. Compreendi que menos é mais. Quanto mais eu tenho, mais me preocupo em manter o que tenho. Do mesmo modo, quanto menos eu possuo, menos tempo perco desperdiçando em tentar garantir o que tenho.

Por fim, duas coisas importantes devem ser ditas. A primeira é que quando formos embora, não seremos nós que vamos escolher a nossa roupa de viagem, pois assim como chegamos, vamos partir. A segunda nos mostra que pessoas e, especialmente sentimentos, são mais importantes que objetos, porque como disse a raposa ao Pequeno Príncipe, “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”.