Por que não somos livres?

Os tempos da escravidão e da ditadura acabaram. Será?

A abolição da escravatura no Brasil ocorreu no ano 1888 e o fim da ditadura militar em 1985. Faz muito tempo, mas deixaram muitas marcas, que certamente não vão desparecer tão cedo.

Na escravidão tem o escravo, que o dicionário define como “pessoa que é propriedade de outra”. Se somos propriedade de alguém, somos um objeto, e como tal seremos usados da maneira que melhor convir ao nosso dono. Não tomamos decisões, não escolhemos, não optamos, não temos opinião, enfim, não existimos.

Na ditadura militar havia censura à imprensa; e aos opositores do regime militar eram praticados os crimes de tortura, assassinato, estupro, e até desaparecimento. Não havia liberdade de opinião, não havia opção; para alguns, apenas resistir.

Acreditamos todos que esses tempos não voltam mais, mas culturalmente continuamos carregando dentro de nós os resquícios da escravidão. Estamos sempre querendo impor algo a alguém, seja um pagamento medíocre por atividades realizadas (leia-se exploração do trabalhador), seja um modo de viver a vida, seja uma opinião, e até mesmo um voto nas eleições.

Estamos de alguma forma tentando censurar os outros, sejam pessoas ou empresas, especialmente quando elas não promovem a mesma opinião que a nossa. Continuamos também a buscar a liberdade, mas talvez só nos discursos, porque no dia a dia permanecemos escravos da internet, do celular, do colega de trabalho, da opinião alheia.

Da mesma forma, continuamos incapazes de retirar os grilhões que nos prendem ao consumo, ao marketing, ao modo de vida capitalista. Mas o problema não é o capitalismo, e sim a forma como escolhemos o nosso modo de viver. Procuramos na sociedade um modelo de felicidade, que nos abasteça todos os dias de coisas, e não mais de sentimentos. Necessitamos de autoestima e acreditamos encontrá-la na vitrine de uma loja.

Não temos mais ideais, porque nos escravizamos seguindo os ideais dos outros. Optamos pela não liberdade de escolha, porque é mais fácil e prático que o outro o faça, pois se não obtiver êxito, a culpa será dele e não minha. Temos preguiça de caminhar e ficamos esperando que alguém nos desenhe o caminho. A inação nos permite que vivamos em paz.

Sartre dizia que “estamos condenados a ser livres”, porque carregamos nos ombros a responsabilidade de fazer escolhas e pavimentar nossos próprios caminhos. Infelizmente permanecemos na escravidão, seja como algozes, ao impor aos outros nossas vontades, seja como vítima, quando declinamos a nossa liberdade.

O que vale mais: talento ou esforço?

Desde muito cedo somos blindados pelos pais e familiares, e até mesmo professores, quando nos dizem que temos talento nesta ou naquela atividade. Se temos facilidade em fazer cálculos, certamente a profissão de engenheiro está encaminhada. Se a habilidade notada é na escrita ou na leitura, talvez torne-se um promissor advogado.

Dom, talento ou aptidão, carregam sempre nas entrelinhas um poder divino. Quando não, é genética. Ciência e religião se misturam para mostrar que uma das suas habilidades não te pertence, que é externa a você. Simplificando, você teve sorte, pois nasceu assim…

Com o passar do tempo você se acostuma a ser talentoso, e pouco se esforça para melhorar. Enquanto muitos suam a camisa, para serem reconhecidos em algum esporte, você descansa, e sabe que a qualquer momento, num simples toque de mágica, vai resolver o problema do time. É a diferença do craque para o “perna de pau”.

Dizem os antigos que quando ganhamos algo sem fazer esforço, não damos muito valor. É mais ou menos isso com o talento. Se nasceu comigo, vai permanecer, então pra que treinar, dedicar e esforçar?

Quando chegamos à fase adulta, descobrimos que nem sempre o talento vence. O dom que você tinha para a música não foi aperfeiçoado e ficou pra trás. O atleta ou esportista que você era não existe mais, porque a falta de atividade consumiu o seu corpo. O menino bom em matemática não virou engenheiro, porque não gostava de estudar.

Se você gostou do tema e quer aprofundar um pouco mais, indico dois livros: Mindset, de Carol Dweck e Garra, de Ângela Duckworth, ambas psicólogas. É impressionante como passamos muito tempo de nossas vidas acreditando que somos talentosos, que somos bons em algo e deixamos o esforço de lado. Pensamos que os aprovados em concursos são gênios, que os grandes pensadores tiveram a sorte de nascerem inteligentes, e que muitos hoje fazem sucesso em alguma área, porque era esse o destino deles.

Para finalizar, deixo uma frase que sempre gostei e é atribuída a Dave Weinbaum: “Se não puder se destacar pelo talento, vença pelo esforço”.

Por que escolhemos o mesmo lado?

Façamos um exercício. Coloque uma de suas mãos sobre um dos seus olhos, tapando-o. O que vai acontecer? Certamente seu ângulo de visão diminuirá, fazendo com que você tenha dificuldade de enxergar algum objeto ou o lado no qual ele está.

É assim que agimos quando escolhemos um lado; esquecemos o outro. Se passo a enxergar tudo pelo lado esquerdo, deixo de observar o lado direito e vice-versa. E quando faço isso, passo a crer que tudo o que está de um lado é verdadeiro e o que está do outro é falso.

A nossa vida é repleta de antagonismos. Gostamos da noite, mas precisamos do dia também. O que seria da felicidade se não houvesse a tristeza? Como daríamos valor à vida se não existisse a morte? Que graça teria se todos nós enxergássemos tudo à nossa volta sempre pelo mesmo lado?

Reparem que quando tapamos uma das vistas com a mão, ainda assim, se esforçarmos, conseguiremos ver o lado oposto. É difícil, mas enxergamos. E por que isso acontece? Por dois motivos. Primeiro, porque há uma boa vontade no olhar em superar os obstáculos. Segundo, por necessidade. É quando o que eu vejo já não mais me agrada ou satisfaz. Preciso ampliar meu horizonte, e isso só se dará com outro olhar.

A vida para ser bem vivida pede-nos que olhemos para todos os lados, porque em cada um deles, a paisagem será diferente. Temos que sair de nossas cavernas, pois só veremos a luz quando entendermos que estamos na escuridão.

O que te faz sofrer?

Antes de mais nada, esclareço que este texto não faz referência àquelas pessoas que sofrem por algum tipo de doença real, que nasceram com ou adquiriram determinadas patologias, e que por isso encontram-se em sofrimento.

Falo agora de sofrimentos causados por doenças imaginárias, daquelas que poderiam ser evitadas, se tivéssemos mais autoconhecimento, um pouco mais de maturidade ou mesmo se nos embrenhássemos pelas leituras de alguns filósofos.  

Não são necessários muitos exemplos, pois apenas um basta para compreendermos o quão sofremos desnecessariamente e o que é melhor, o remédio e a cura estão dentro de nós.

Vamos ao exemplo para reflexão: alguém te informa que outro alguém disse não gostar de você. Pergunto: Qual a sua reação? Questionará o informante o porquê? Procurará a outra pessoa diretamente para sanar a dúvida? Ficará remoendo esse assunto em casa ou com os amigos? Dormirá pensando no acontecido?

Penso que a maioria de nós sofrerá pensando na situação. Mas qual é a dor? Preocuparmos excessivamente com a opinião alheia. E qual é o remédio? Entendermos que a solução do problema está em nós e não nos outros. Se alguém não gosta de mim, o problema não é meu e sim do outro. Na mesma lógica, ninguém muda ninguém! E as pessoas sofrem com isso…

O pai quer mudar o caminho do filho. A esposa reza para que o marido mude de opinião. O empregador deseja que o empregado mude de atitude. Desejamos que as pessoas se tornem, pensem ou ajam como nós. Olhamos para elas e queremos vê-las como nosso espelho, mas não conseguimos mudá-las. Por isso dói saber que alguém não gosta de mim!

Sugiro então fazermos outro exercício para reflexão: valorizar o que somos e o que temos, apesar dos outros. Quem sabe assim conseguiremos seguir um dos ensinamentos de Shakespeare: “Sofremos muito com o pouco que nos falta e aproveitamos pouco o muito que temos”.

O que nos guarda o futuro?

O futuro não existe! Daqui um minuto ele será presente e logo em seguida passado.

Há pessoas que ocupam grande parte do seu tempo pensando no futuro e outras que não se importam nem um pouco com a chegada dele. Qual o melhor caminho? Eu escolheria o caminho do meio, ou como diria Aristóteles, em Ética a Nicômaco, “o meio termo é digno de elogio, uma vez que os extremos não são nem corretos, nem louváveis, mas ao contrário, censuráveis”. Resumindo, o que importa é o equilíbrio.

Nesse sentido, se só penso no futuro, deixo de viver o presente. É como estar diante de uma bela paisagem e só ficar tirando fotos, para depois (no futuro próximo) postá-las. É preciso aproveitar o momento…Carpe diem!

Da mesma forma, se pauto a minha vida ignorando o futuro, este pode se tornar um grande fardo. É como desejar ter boa saúde daqui a dez anos e viver o presente de forma desregrada. É como sonhar com a aposentadoria no futuro e não contribuir no presente para que ela aconteça. Não há futuro sem presente!

Além desses dois grupos de pessoas que só pensam no futuro ou no presente, existe um terceiro que é mais preocupante. São aqueles que só pensam no passado. Culpam-se pelo que aconteceu e que não pode mais ser mudado. Sofrem com as lembranças do que poderia ter acontecido.

Quem sabe a resposta não está nos versos da Aquarela de Toquinho:

“E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar

Não tem tempo nem piedade nem tem hora de chegar

Sem pedir licença muda nossa vida

E depois convida a rir ou chorar”

Mas então, o que nos guarda o futuro? De certo, somente a morte…

Por que os casamentos não duram mais?

Quando me perguntam sobre casamento, costumo dizer que casamento foi feito para não durar. E não estou sendo pessimista.

Casar é unir duas pessoas diferentes, onde essas diferenças, muitas vezes não visíveis aos olhos, propiciam diversos obstáculos ao matrimônio. Elas podem ser econômicas, sociais, sexuais, de educação, de criação, religião, estilo de vida, enfim, de qualquer natureza, revelando-se ao casal um novo desafio: continuar casados!

Atualmente casamento tem mais a ver com parceria que com amor. E o dicionário concorda: parceria “é a reunião de indivíduos para alcançar um objetivo comum”. Qual é o objetivo? Para muitos, manter-se casados. Para outros dar satisfação à sociedade. Pra mim, fazer o outro feliz.

Há duas grandes mentiras que as pessoas acreditam quando se casam. A primeira é achar que o outro vai mudar depois de casado. Se sua namorada gasta muito tempo para se arrumar, sua esposa também o fará. Se seu namorado gostava de beber, seu marido vai continuar gostando. Lembre-se: Ninguém muda ninguém!

A segunda mentira é crer que você está no casamento para ser feliz. Primeiro porque o conceito de felicidade é amplo e individual, a minha felicidade pode não ser a sua. Segundo, porque no casamento não existe mais “eu”, e sim “nós”. Nossa casa, nosso carro, nossos filhos, nossos objetivos, nossa felicidade…

É lógico que precisamos entender que os tempos mudaram, e as relações também. Segundo Baumann, nos seus livros Amor líquido e Modernidade líquida, os relacionamentos de agora são mais flexíveis, se desfazem mais facilmente, são pouco duradouros. “Nada é para durar”. Resumindo e sendo direto: as pessoas trocam de relacionamento como trocam de roupas.

Entretanto, é preciso pontuar que os relacionamentos de hoje acontecem mais por afinidade que por obrigação, especialmente se os compararmos aos de outras épocas. Alguém pode sugerir que os casamentos de antigamente eram melhores porque duravam mais. E eu pergunto: eram melhores para quem? Certamente para os homens, que tinham a liberdade de ter relacionamentos extraconjugais, que não podiam ser questionados pelas esposas, e que essas, por suas vezes, suportavam caladas, pois viviam numa sociedade onde reinava o machismo.

Hoje é muito diferente? Nem tanto, mas as mulheres estão mais empoderadas, principalmente pela independência profissional frente aos maridos.

Repito: casamento é parceria, tem que ser bom para os dois lados.

De quanto tempo você precisa?

Tempo é artigo de luxo. Vale muito, muito mesmo, e não tem dinheiro no mundo que possa comprá-lo.

Quando somos crianças não o vemos passar, porque não temos a consciência de que ele existe. Não há responsabilidades, só o lúdico. Na adolescência começamos a descobrir que ele é importante, principalmente quando se espera por alguém. Nos tornamos adultos e o tempo nos diz: “Não sou infinito, use-me melhor”. E quando chegarmos à terceira idade, talvez você o abrace, sentindo gratidão ou talvez pense: “Agora é tarde demais”!

O tempo é voraz, insaciável, absoluto. Estamos sempre precisando dele, mas muitos de nós não o encontramos. Ele se esconde nos bons momentos, como num bate papo com os amigos, no afago ao filho, na conversa com os pais, no diálogo com a pessoa amada. Quando isso acontece ele passa rápido e nem percebemos…

Eu preciso de tempo para ler, escrever, organizar meus objetivos, ir ao supermercado, trabalhar, buscar o filho na escola, terminar um curso, planejar, fazer, agir, correr atrás…Preciso de tempo útil, que valha algo, que seja racional. Eis então que surge a doença, a dor, o sofrimento, e descubro que todo o meu tempo foi perdido. Não vou recuperá-lo, pois o deus Cronos nos vai devorando, minuto a minuto.

Precisamos sim de tempo inútil, para ir ao jardim e nada dizer, somente observar. Meditar, abraçar, jogar conversa fora, silenciar. Estamos envelhecendo e Cronos nos mostra isso a todo instante. Sofremos com o que os outros pensam de nós e estamos sempre fazendo algo para preencher o tempo, como se ele pudesse expandir, como um elástico. Por que necessitamos de tempo, se o que temos é desperdiçado? Para que mais tempo de vida, se vivemos de forma medíocre? É preciso refletir!

De quanto tempo precisamos? Um minuto, uma hora, um mês, um ano? Olhe para dentro de você e pergunte-se como está sendo gasto o seu tempo. Neste exato momento, estaria eu perdendo o meu tempo escrevendo este texto?

Penso que não, pois estou gastando o meu tempo fazendo o que gosto…

O novo te assusta?

Mudar. Começar do zero, inovar, reinventar…Isso tudo te apavora? A mim sim.

Um novo emprego, um novo relacionamento, um novo endereço, uma nova forma de viver a vida. Parece assustador e é, mas precisamos acostumar com aquilo que não conhecemos e que, aliás, só vai ser conhecido se aceitarmos, praticarmos e vivermos o novo momento.

Lembra do seu primeiro emprego? Tudo foi novidade, porque você nunca havia trabalhado. E aí quando você se acostumou com o trabalho, com os colegas, com o chefe e com o ambiente da empresa, acabou sendo demitido ou pediu pra sair, querendo alçar novos voos.

O novo é assim, aterrorizante! E quando falamos de novas tecnologias? Há pessoas que não estão em redes sociais por medo do novo. O medo de ter sua vida pessoal invadida. O não saber manusear o celular. Trocar de aparelho? Nem pensar! Um novo é muito caro (é a desculpa), mas na verdade é que um novo smartphone vai exigir maior esforço, porque tudo que é novo é diferente, e dá trabalho.

Acreditamos que nunca vamos nos adaptar ao novo. E no início comparamos o atual com o antigo. Seja o(a) namorado(a), o celular, o chefe, o emprego, a cidade, enfim, vamos sofrendo, até que o tempo, senhor de tudo, nos vai acalmando e dizendo: “Tá vendo, não falei que ia dá certo”?

O novo é assim…aparece, convida e espera. E enquanto não entendemos que mudar é necessário, que o velho, muitas vezes, é mais do mesmo, ou que em nada nos agrega, vamos vivendo na comodidade de nossas cavernas.

Quem é o outro?

O outro é alguém que está fora de mim. Ele pode ser real ou imaginário. Real quando posso tocá-lo ou quando ele faz parte da minha realidade. Imaginário quando penso que ele existe, mas não o conheço, e talvez nem queira conhecê-lo.

A relação que temos com o outro diz muito sobre nós. Penso que existem dois aspectos relevantes no que diz respeito ao outro. Vamos a eles.

O outro enquanto ser inexistente. Esse outro não existe, pelo menos pra mim. Aliás, ele pode até existir, mas nunca o vejo, talvez porque eu olhe só pra dentro e nunca pra fora. Esse outro na realidade é uma sombra da qual tento me esconder, mas que me persegue. Esse outro não me interessa, pois não faz parte da minha vida. É um transeunte qualquer, que desconheço, que ignoro, que só existe porque é um número.

O segundo outro é o que eu me importo. É aquele a quem eu devo e dou satisfações. Me visto por causa dele, mudo de opinião, faço ou deixo de fazer algo por interesse dele. Esse outro toma meu corpo e minha mente e guia meus passos por caminhos que muitas vezes não desejo, mas que assim mesmo sigo, porque não sou mais eu quem toma as decisões, não sou eu quem faz as escolhas, mas ele, o outro.

Onde está a diferença? No olhar de cada um. Ignoro, descarto, desprezo o outro quando ele não me é importante. Adulo, sigo, imito o outro quando tenho o sentimento que não sou livre e preciso desesperadamente que me desenhem um caminho, pois não consigo criar os meus. Não sei andar sozinho, e o outro é minha muleta.  

Precisamos escolher um ao outro. Necessitamos romper os grilhões com o último e abraçar o primeiro.