O que está nas entrelinhas?

Todo texto possui linhas e entrelinhas. Algumas pessoas apenas leem o que está nas linhas, talvez porque o tempo seja curto e a pressa maior. Mas as que gostam de pensar e refletir, leem tudo, principalmente as entrelinhas.

 As entrelinhas escondem as intenções do autor. O que ele pensa ou a forma como ele costuma agir, muitas vezes não é expressa de forma clara. O que fazer então para entender? Ler, pensar, pesquisar, procurar respostas.

Se um autor se intitula de direita ou de esquerda, por exemplo, sabemos exatamente o que ele pensa e qual será a sua linha de raciocínio. Não há entrelinhas! Quando não buscamos informações sobre o autor, dificilmente saberemos o que ele quis dizer ou pensou. E passamos a interpretar o seu texto, tendo um resultado positivo ou não, dependendo da visão do leitor. A isso damos o nome de percepção, ou seja, cada um tem a sua.

O que me encanta nas entrelinhas é exatamente o não expor, porque me faz pensar, refletir, entender e tentar compreender o que foi escrito. Isso estimula o pensamento, a criatividade. Posso crer que aquele texto passava uma mensagem de otimismo, enquanto outra pessoa, fazendo a mesma leitura, enxerga algo de pessimismo. Essa gama de possibilidades é gerada a partir de diversas visões que cada um pode ter olhando para o mesmo alvo, porém de forma diferente.

Cito como exemplo o tema morte. Em meus textos, sempre gosto de falar da morte, mas todas as vezes que a utilizo é pensando na vida. Num texto atribuído a Fernando Pessoa, intitulado “A morte de cada dia”, o autor também retrata a morte sob a perspectiva positiva do renascer. Devemos morrer, para renascer melhores. A morte quer dizer o fim de uma fase, de uma etapa da vida. A ideia é evoluir e deixar para trás os erros, os pensamentos ruins etc. E o texto mostra isso, tanto nas linhas quanto nas entrelinhas.

Nas entrelinhas o autor mostra quem ele é, em que acredita, seus sonhos e também pesadelos. As entrelinhas mostram aquilo que realmente somos, o nu e o cru, a partir de uma visão real e não ideal, como a maioria possa desejar. É tentar enxergar a vida, a morte, o trabalho, o sonho, a verdade, enfim, tudo sob outra perspectiva, sob uma nova ótica.

Tudo que é subjetivo está nas entrelinhas, porque o que é objetivo sempre aparece. É como na metáfora do iceberg. O texto é a ponta dele, é o que aparece, enquanto as entrelinhas estão no fundo, escondidas, esperando alguém para lê-las e descobrir novas possibilidades.

É por isso que amo ler e escrever, porque descubro no texto o subtexto, nas linhas as entrelinhas; sonho acordado com imagens, cenários e personagens. Porque quando digo que a beleza não existe, é porque ela existe, não para quem acha que a tem, mas para quem consegue enxergá-la ao seu modo.

Publicado por Ralph Neves

Não sei bem me definir...Gosto de escrever, talvez porque gosto muito de ler. Sou curioso e tenho muitas dúvidas, mas não sou cético, porque acredito em muitas coisas e ao mesmo tempo não creio em nada. Muitas vezes penso que sei, e descubro que não sei nada. A frase atribuída a Descartes ajuda a me definir: "Daria tudo que sei pela metade que ignoro". Estou sempre procurando e talvez não encontre, mas o que realmente importa? Certamente é o caminho da busca...

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