O que aprendemos com os jardins?

Jardins são como templos, silenciosos e sagrados. Mas nem sempre essa foi a minha opinião.

Ter um jardim em casa passa necessariamente por duas mudanças: a primeira é na forma de pensar, a segunda é na forma de agir. Mudar de opinião ou de ideia não é tão fácil como se imagina, pois envolve uma ruptura de crenças. Vamos a elas.

A primeira é a crença da utilidade. Qual a utilidade de um jardim? Essa costuma ser a pergunta predileta do racional. Vamos gastar dinheiro quebrando o quintal que é cimentado. Utilizar uma terra adequada, comprar tapetes de grama, algumas mudas de plantas, disponibilizar uma mangueira com água, próxima ao local, enfim, muitos gastos. Pra quê?

Não sou contra a razão, mas em alguns momentos de nossas vidas precisamos e precisaremos agir com a emoção. É aí que está a mudança de pensamento. Por que tudo na vida deve ter uma utilidade? Por que tudo deve ter um objetivo? Não posso realizar algo movido pela emoção, pela paixão?

O jardim é isso. Emoção. É enxergar o verde, ver o vermelho e o amarelo das frutas, sentir o cheiro de natureza, a brisa que bate no rosto e que por alguns instantes nos faz esquecer os problemas. O jardim é a transformação da razão em emoção. Do cimento duro e seco, para a grama molhada e suave. É deixar-se mudar não pela necessidade, e sim pelo desafio do que é novo. O que é mais fácil? Cuidar de um quintal cimentado ou de um jardim? Sem dúvidas, que o tapete cinza do cimento é bem mais fácil. Mas quem disse que só o que é fácil é bom?

A segunda crença está na ação, na prática. É no cuidado cotidiano que enxergamos a beleza do jardim. Um filho, um animal ou uma planta – todos exigem cuidados. É o amor regado a cada dia que vai fazer o seu jardim crescer, frutificar, exalar o cheiro da natureza. O esforço do dia a dia, de molhar a grama, de podar, rastelar, adubar, cuidar, tudo isso vai tomar o seu tempo, mas são esses momentos que vão lhe despertar para o irracional, ou seja, por que fazer tudo isso quando uma simples vassoura resolveria o quintal cimentado? Por nada! Não há utilidade. Não há razão. É simplesmente a natureza se mostrando bela e perfeita.

Por isso, se algum dia você se cansar de olhar para o cimento frio que envolve a sua casa, pense num jardim. Ele não precisa de muita coisa, basta carinho, atenção, emoção e muita inutilidade, porque o mundo não precisa ser útil o tempo todo.

Que os jardins possam ser a nossa resposta às mudanças que insistem em nos tocar. Que o verde tome conta do cinza e que o nosso pensamento não seja padronizado. E nossos sentimentos possam aflorar, de dentro pra fora, pois como dizia Rubem Alves “quem não tem jardins por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles…”.

Publicado por Ralph Neves

Não sei bem me definir...Gosto de escrever, talvez porque gosto muito de ler. Sou curioso e tenho muitas dúvidas, mas não sou cético, porque acredito em muitas coisas e ao mesmo tempo não creio em nada. Muitas vezes penso que sei, e descubro que não sei nada. A frase atribuída a Descartes ajuda a me definir: "Daria tudo que sei pela metade que ignoro". Estou sempre procurando e talvez não encontre, mas o que realmente importa? Certamente é o caminho da busca...

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