Por que mudar o outro?

O ato de mudar é de cada um. Só mudamos quanto sentimos que a mudança é necessária, e mesmo que alguém insista, clame, implore que mudemos, ela (a mudança) só acontecerá quando sentirmos vontade de mudar.

Sônia é a nossa personagem. A sua beleza se contrapunha às suas crenças. Acreditava piamente que a opinião dos outros importava. E vivia sua vida assim. Suas amizades, suas roupas, seu modo de falar e de agir eram em conformidade com o que a “boa sociedade” exigia. Para piorar, seu marido era o oposto. Sujeito simples, de hábitos comuns, adorava conversar fiado, andar de chinelo e bermuda, e não se importava muito com o que os outros pensavam dele, afinal, como ele dizia “ninguém anda pagando minhas contas”.

Relacionamentos que começam assim, entre pessoas muito diferentes, costumam não ir adiante, especialmente quando o comportamento de um incomoda o outro. Essa história de que os opostos se atraem parece mais coisa de novela que de vida real. Voltando ao casal, Sônia se sentia desprestigiada pelo próprio marido, porque sempre comprava roupas novas e caras, mas quando as usava não se sentia feliz, pois o marido não pensava e agia como ela.

Certo dia Sônia cansou e caiu em prantos antes de um compromisso. Vestida de forma impecável, viu o marido sair do quarto com a camisa do seu time de futebol. A decepção no seu rosto ficou clara e mesmo implorando para que o marido trocasse de roupa, não conseguiu dissuadi-lo. Represando todos os sentimentos ruins, não suportou mais e despejou tudo o que sentia contra o marido. Em seguida caiu em prantos, e o evento que fora sonhado também se desfez.

O marido de Sônia, espantado com o que acontecera, decidiu então mudar. Repensou os prós e contras e resolveu que agradaria a esposa, o que certamente fortaleceria seu casamento. Foi à melhor loja da cidade e encheu as sacolas: tênis, sapatos sociais, camisas de marca, meias, calças etc. Quando chegou em casa, a esposa parecia não acreditar e vendo aquele monte de sacolas e roupas, abraçou e o beijou, e até uma pequena lágrima pôde ser vista rolando pelo seu rosto. Enfim, ela havia conseguido mudar o marido.

Então veio um novo evento. Devidamente arrumados saíram felizes para a festa. O marido se sentindo ainda estranho pelas roupas e Sônia segurando a mão do marido como se fosse um troféu. Alguém consegue adivinhar quem foi o centro das atenções na festa? Quem respondeu ‘o marido de Sônia’ acertou. Foram tantos elogios, brincadeiras, olhares audaciosos, que Sônia passou despercebida. Seu marido, até então não muito sociável, pareceu gostar desse no novo modo de viver e passou a se destacar nos eventos, sempre sorrindo, conversando muito e, principalmente, bem vestido. Passou a marcar compromissos e vestir-se de forma impecável passou a ser um hábito.

E Sônia? Bem, Sônia começou a não se importar tanto com o bem vestir, em comprar novas roupas, nem mesmo frequentar tantas festas. Cada vez mais foi desgostando de sair, até adoecer. Aconselhada por amigas e parentes procurou terapia. Aos poucos foi aceitando que cada um tem suas idiossincrasias e que mudar nem sempre é positivo, especialmente quando a mudança se dá de forma abrupta ou desmotivada.

E o marido de Sônia? Bem, não se sabe muito bem o que ele anda fazendo hoje, somente que não continuou a ser fiel à esposa e que, meses depois pediu o divórcio. Morou sozinho por um tempo e voltou a se vestir como antes, de forma bem simples. A vida de festas, as roupas novas e o relacionamento acabaram, mas parece que a sua essência se manteve.

Nas grandes lições que a vida nos traz todos os dias, Sônia precisou estar sozinha para se conhecer melhor e também aos outros. Já o marido dela precisou mudar externamente para entender que a mudança deve vir de dentro. E ambos descobriram que ninguém muda ninguém!

Publicado por Ralph Neves

Não sei bem me definir...Gosto de escrever, talvez porque gosto muito de ler. Sou curioso e tenho muitas dúvidas, mas não sou cético, porque acredito em muitas coisas e ao mesmo tempo não creio em nada. Muitas vezes penso que sei, e descubro que não sei nada. A frase atribuída a Descartes ajuda a me definir: "Daria tudo que sei pela metade que ignoro". Estou sempre procurando e talvez não encontre, mas o que realmente importa? Certamente é o caminho da busca...

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