Quem é racista?

O racismo está em moda novamente, e infelizmente. Digo moda, porque ele vem e vai, sempre que algum novo acontecimento surge. Casos de racismo vão florescendo aqui e ali, e com o destaque da mídia, vão se tornando conhecidos e também nos causando repulsa; mas ao mesmo tempo vão sendo divulgados, mostrando quem são os racistas, como eles agem e porque o fazem. Uso também a palavra “infelizmente” porque se ele aparece é sinal de que não findou, não morreu, e por vezes surge com mais vigor.

O problema do racismo, se é que existe só um, é que o racista nunca assume que é, usando em seu favor argumentos esdrúxulos do tipo: “tenho amigos negros”, “trabalho com pessoas negras”. Como se isso bastasse. Para não ficar aqui enumerando os tipos de racismo indico dois bons livros – Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro; e Racismo Recreativo, de Adilson Moreira. Enquanto os leitores não leem os livros, vamos a uma pequena história:

‘Era segunda-feira. Pedro acordou cedo. Ao abrir o portão de casa, ouviu o vizinho dar um bom dia e dizer que estava cedo, ao que Pedro respondeu: “Hoje é segunda, Antônio, dia de preto”.

Chegando ao trabalho, o porteiro da empresa mal respondeu o ‘bom dia’ de Pedro e quando este questionou, o outro respondeu: “Trabalhei que nem um preto escravo nesse final de semana. Fiz uns reparos em casa e ainda limpei o quintal todo”. “E por que não contratou alguém”? – perguntou Pedro. “Porque a situação tá preta, Pedro”.

Já no seu setor, Pedro percebeu que faltava alguém. Era Carla, que logo em seguida chegava atrasada e reclamando de tudo. “O que houve, Carla”? – Pedro perguntou. “O de sempre, Pedro. Esse cabelo que nem na chapinha queria alisar. Também quem mandou ter cabelo ruim né”? – respondeu sorrindo. Pedro também sorriu e disse que o dia não tinha começado bem pra ele. No caminho para a empresa quase atropelara um gato preto. “Já não tenho muita sorte, imagina matar um gato preto”.

O dia passou e Pedro já estava saindo quando o seu celular tocou. Era sua esposa pedindo a ele que passasse na padaria e comprasse pães e um bolo. Ao ver o celular que era novo, Fabrício comentou: “Celular novo, chefe? Muito bonito. Onde comprou? Quero um também. Pode ficar tranquilo que eu não quero o seu, só um igual, tô com uma inveja branca”. Pedro riu da brincadeira e disse que comprou o celular no mercado negro, por um preço bem menor que o usual. “Vou te passar o contato, Fabrício, mas não conta pra ninguém, pois não quero ser difamado por comprar produtos ilegais. Não quero saber de ninguém denegrindo minha imagem”.

Ao chegar em casa, Pedro foi recebido pelo seu filho pequeno, que com um caderno na mão, foi logo dizendo que a professora havia passado uma pesquisa para fazer com os pais sobre o tema racismo. “Qual é a pergunta, filhão”?

“- Pai, você é racista”?

“- Claro que não, filho. Deus me livre”!

Publicado por Ralph Neves

Não sei bem me definir...Gosto de escrever, talvez porque gosto muito de ler. Sou curioso e tenho muitas dúvidas, mas não sou cético, porque acredito em muitas coisas e ao mesmo tempo não creio em nada. Muitas vezes penso que sei, e descubro que não sei nada. A frase atribuída a Descartes ajuda a me definir: "Daria tudo que sei pela metade que ignoro". Estou sempre procurando e talvez não encontre, mas o que realmente importa? Certamente é o caminho da busca...

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