Por que as pessoas furam as filas?

Não é de hoje que se diz que o brasileiro é malandro, ou que gosta de levar vantagem em tudo. Não posso afirmar que isso é verdade nem tampouco que é cultural, porque nunca pesquisei a fundo sobre o tema, apesar de algumas leituras realizadas nessa área. Da mesma forma, dizer que o brasileiro é assim ou assado, acaba generalizando ou rotulando uma população inteira como esperta ou que age sempre de má fé.

Furar a fila é “algo feio”, como dizem os pais às crianças. Não deve ser feito, porque quem chegou primeiro deve ser atendido antes de quem chegou depois. Mas nem sempre isso acontece, e muitas vezes não percebemos o que há por trás dessa mania atribuída ao brasileiro de querer ser mais esperto que o outro.

Vamos lá. Para início de conversa, o indivíduo que fura filas só consegue alcançar seu êxito quando as demais pessoas que estão na fila permitem. E isso diz muito da passividade do brasileiro. As pessoas não querem brigar e então essa cordialidade, tão bem tratada por Sérgio Buarque de Holanda em sua obra Raízes do Brasil, mostra um pouco daquilo que somos: afáveis, bondosos, emotivos, amigáveis.

Exemplo disso acontece quando o governo toma medidas que afetam, de certa forma, a população em geral. Cria-se um novo imposto. Aumenta o preço da gasolina. Altera a legislação previdenciária. O que a população faz? Nada. Reclama, resmunga, murmura, mas nenhuma ação é tomada. Assim é o brasileiro: passivo. Em outros países, até mesmo próximos ao nosso, as reações são imediatas – protestos, revoltas e greves. Existe uma movimentação contrária ao que foi determinado pelo governo. Se vai funcionar ou não é outra questão, mas a população, ou grande parte dela, demonstra indignação.

Outro ponto importante, e que é passível de discussão nas filas furadas, trata da falta de respeito. O problema de se furar a fila não deve ter o seu foco na questão do direito de quem chegou primeiro, mas na falta de respeito com os demais que chegaram antes. Se eu respeito o próximo, vou entender que tanto para ele quanto para mim a urgência será a mesma. E mais, se existem regras, ainda que não formalmente escritas, elas precisam ser cumpridas. Isso também acontece com certa frequência em supermercados, quando os caixas rápidos, destinados a pessoas com até dez produtos, são ocupados por pessoas com mais de dez itens, que insistem em permanecer naquele local. Ou ainda, quando alguém estaciona o veículo em vaga destinada a deficientes ou idosos.

 Na verdade, quando falamos de furar filas, estacionar em locais proibidos, não usar a máscara (em tempos de pandemia), ou cometer qualquer outro tipo de transgressão, estamos esquecendo ou deixando de lado um assunto que é muito mais importante que as pequenas infrações, a Educação. Educação com E maiúsculo, porque é o que mais nos falta no país.

A partir do momento que entendermos que furar uma fila não é mais questão de esperteza e sim de falta de educação, conseguiremos compreender também que o respeito que não temos ao nosso semelhante e a nossa passividade diante de tudo que nos acomete, são da mesma forma uma grave consequência da nossa alienação, seja ela no cenário político, econômico, e principalmente no social.

Publicado por Ralph Neves

Não sei bem me definir...Gosto de escrever, talvez porque gosto muito de ler. Sou curioso e tenho muitas dúvidas, mas não sou cético, porque acredito em muitas coisas e ao mesmo tempo não creio em nada. Muitas vezes penso que sei, e descubro que não sei nada. A frase atribuída a Descartes ajuda a me definir: "Daria tudo que sei pela metade que ignoro". Estou sempre procurando e talvez não encontre, mas o que realmente importa? Certamente é o caminho da busca...

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