Por que praticar o desapego?

Se “a única constante é a mudança”, conforme previa Heráclito de Éfeso, por que nos apegarmos tanto a algo ou a alguém?

Quando somos muito jovens nos apegamos sobremaneira a coisas e pessoas, que num breve espaço de tempo já não nos são mais interessantes. Os colegas de escola se mudam e seguem a vida assim como nós. Objetos como brinquedos, roupas e livros perdem o valor porque mudamos e aprendemos a nos desapegar deles, porque eles não possuem mais a importância que tinham.

Assim deveria continuar por toda a vida, mas alguns bens e pessoas parecem despertar em nós um interesse maior e quando percebemos já estamos tão apegados que não conseguimos imaginar a vida sem eles. Como objeto o dinheiro parece ser o que mais temos dificuldades em desapegar. Por quê? Porque é o dinheiro que nos garante a sobrevivência. Mas de quanto dinheiro precisamos para sobreviver? Com certeza bem menos do que acreditamos.

O dinheiro nos proporciona momentos de felicidade e pode trazer-nos a tranquilidade que precisamos para realizar os nossos projetos de vida. No entanto, talvez de forma inconsciente, abrimos mão também de uma vida mais tranquila, ainda que com menos dinheiro, para ter uma vida atribulada com mais dinheiro. Quando nos apegamos a ele, o caminho parece não ter fim, como se caminhássemos no deserto. Fazemos contas, adquirimos bens, compramos algo para melhorar nossa autoestima, e quando percebemos o dinheiro não foi suficiente, e no mês seguinte temos que trabalhar mais, porque o dinheiro nunca sobra, sempre falta.

Ao transferir o dinheiro para os bens, nos apegamos também aos objetos. A caneta que fiz minha primeira prova na faculdade, a carta de amor da primeira namorada, a roupa de quadrilha da filha que já casou e tem seus filhos, o conjunto de chá empoeirado na sala esperando uma visita importante, o cartão postal do amigo que viajou à Europa e te mandou de lembrança, o livro que você não gosta, mas que ganhou de alguém que já se foi, a camisa já puída e sem uso que ganhou da amiga que foi a Porto Seguro com o famoso dizer “Estive na Bahia e lembrei de você”.

São tantos bens, coisas e objetos que fazemos questão de manter em casa, entulhando as gavetas e a nossa vida, que nem nos damos conta que eles mostram quem nós somos: pessoas que acumulam, que não desapegam. Tem gente que diz que não é apegada, que não tem muitas coisas, mas se fosse mudar de casa, certamente precisaria de uns dois caminhões para transportar tantos objetos, a maioria deles inútil.

Há pessoas que se apegam a pessoas. É o ex-namorado, a ex-esposa, aquele namoro que poderia ter dado certo, aquela pessoa que não tive coragem de me declarar, enfim, nos apegamos ao que já passou e que não tem mais volta. Apegamos também ao futuro, como se ele tivesse data certa para acontecer. Não tem! O melhor a fazer é viver o presente, sem se preocupar em conquistar bens, afinal de contas, como diz um amigo meu: “Caixão não tem gaveta”, então não vamos levar nada dessa vida.

Aprendi que o desapego é a melhor forma de se viver a vida. Quem é desapegado sofre menos, porque aproveita aquilo tem, sem se preocupar com aquilo que não tem. Tem gente que se apega a tudo – bens, beleza, juventude, lugares – e quando percebe que nada é para sempre, vive em sofrimento, o sofrer por tudo aquilo que já foi um dia.

Dizem que a quantidade de chaves que carregamos nos bolsos é inversamente proporcional à nossa felicidade. Descobri no desapego então a fonte da felicidade. Compreendi que menos é mais. Quanto mais eu tenho, mais me preocupo em manter o que tenho. Do mesmo modo, quanto menos eu possuo, menos tempo perco desperdiçando em tentar garantir o que tenho.

Por fim, duas coisas importantes devem ser ditas. A primeira é que quando formos embora, não seremos nós que vamos escolher a nossa roupa de viagem, pois assim como chegamos, vamos partir. A segunda nos mostra que pessoas e, especialmente sentimentos, são mais importantes que objetos, porque como disse a raposa ao Pequeno Príncipe, “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”.

Publicado por Ralph Neves

Não sei bem me definir...Gosto de escrever, talvez porque gosto muito de ler. Sou curioso e tenho muitas dúvidas, mas não sou cético, porque acredito em muitas coisas e ao mesmo tempo não creio em nada. Muitas vezes penso que sei, e descubro que não sei nada. A frase atribuída a Descartes ajuda a me definir: "Daria tudo que sei pela metade que ignoro". Estou sempre procurando e talvez não encontre, mas o que realmente importa? Certamente é o caminho da busca...

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