Vivemos num mundo padronizado?

“Que me desculpem as feias, mas beleza é fundamental” disse o poeta Vinícius de Moraes. Mas pergunto: O que é o feio? E o que é o belo? Alguém pode definir? Por que os cabelos crespos são chamados de ruins? Por que tantos sorrisos nas fotos? Ser feliz é um padrão de vida?

Vivemos num mundo padronizado, seja pela moda, seja pelas tendências; a ideia do que é belo passa pelo artificial, pela montagem, por definições que não condizem com o todo, mas pela maioria. Uma maioria que aponta, que escolhe e define a vida de tantos. O que é bom não passa mais pelo nosso crivo e sim dos outros, dos especialistas, dos estudiosos, dos famosos. São eles que sabem dizer o que é bom e o que é ruim, pra eles e também pra nós.

Guiados pelas mídias que dizem seguir as tendências, passamos dessa forma a optar pelo padrão. Corpo escultural, sorriso brilhante, cabelos lisos, olhos claros, barriga definida ou negativa. Está aí o padrão de beleza. Definido por quem? Por mim? Por você? Ou pelos outros?

Sofremos demasiadamente com os padrões, sejam físicos ou comportamentais. Mas mesmo assim queremos segui-los. Não fazemos mais escolhas pelo que gostamos, e sim por aquilo que nos oferecem como padrão. Trocamos o café pelo chá, porque o chá ajuda no emagrecimento. A esteira da academia toma o lugar da caminhada ao ar livre, porque não basta fazer atividade física, é preciso que todos vejam que eu estou pagando.

Padronizamos os afetos sem nos dar conta disso. Dia das mães. Dia dos pais. Dia dos namorados. Dia internacional da mulher. Se esquecemos de parabenizar alguém nessas datas, somos desumanos, não gostamos mais quanto antes, e seremos durante muito tempo julgados. Dar presentes no Natal, reunir a família, dizer que ela é importante, demonstrar carinho pelas crianças, casar, ter filhos, ter uma profissão, postar que é ou está feliz…tudo isso é sinônimo de vida – uma vida padronizada.

Ninguém quer amar o feio, porque ele é diferente. O feio não perde tempo fazendo selfies. Ele não posta suas felicidades, ainda que poucas e reais. A vida dele não é interessante, porque não interessa a ninguém o seu corpo disforme ou a sua felicidade em comer um pote de doce ou se embriagar num dia de semana. Os padronizados gritam: “Desse jeito você vai morrer”! Como se os belos e magros fossem viver para sempre. Devemos desejar ter saúde, mas para viver, não para mostrar aos outros. E lembre-se: o corpo ideal sempre vai ser o seu.

Competimos o tempo inteiro, porque a competição é também padronizada. Competir é importante e vencer é mais ainda. As vitórias são sempre merecidas. Elas têm mérito. Guardem essa palavra: “mérito”. Existe mérito quando as oportunidades são diferentes? Não vale mais competir, o que vale mesmo agora é ganhar. A medalha de segundo colocado não serve, jogamos ela fora.

Para não me alongar, termino com um ditado africano que diz “até o leão aprender a escrever, a história exaltará a versão do caçador”. Assim continuamos reverenciando o caçador, nos curvando à maioria, achando que o mais importante é ser o melhor, é ser o mais belo. Talvez um dia, quando aprendermos a olhar pra dentro, descobriremos que a beleza interior vale muito mais que qualquer estereótipo.

Publicado por Ralph Neves

Não sei bem me definir...Gosto de escrever, talvez porque gosto muito de ler. Sou curioso e tenho muitas dúvidas, mas não sou cético, porque acredito em muitas coisas e ao mesmo tempo não creio em nada. Muitas vezes penso que sei, e descubro que não sei nada. A frase atribuída a Descartes ajuda a me definir: "Daria tudo que sei pela metade que ignoro". Estou sempre procurando e talvez não encontre, mas o que realmente importa? Certamente é o caminho da busca...

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