Estamos no mesmo barco?

Em tempos de pandemia, tenho escutado com certa frequência a frase: “Agora estamos todos no mesmo barco”. Será? O que seria o mesmo barco? O planeta Terra?

Se estamos no mesmo barco, certamente existe nele uma área VIP e outra destinada exclusivamente aos desafortunados. E mais, se o barco estiver furado, sem sombra de dúvidas, somente um lado terá acessos aos coletes salva-vidas. Qual lado seria esse?

Nessa pandemia, de um lado estão os afortunados ou privilegiados (e eu me incluo nele) que podem ficar em casa. Além disso, esse grupo possui algumas vantagens: continuam empregados (home office ou não), não tiveram seus salários reduzidos, fazem parte de famílias pequenas morando em residências amplas, com acesso ilimitado à internet, e possibilidades maiores ao lazer, uma vez que possuem condições financeiras para tal. Desse modo, as lives dos cantores famosos ficam mais confortáveis, se assistidas num ambiente aconchegante, regadas a um bom vinho.

Do outro lado, pessoas que perderam o emprego, desesperadas para receber o auxílio do governo, pequenos empresários “quebrando”, sendo obrigados a demitir seus empregados; outras tantas pessoas morando em residências minúsculas, com vizinhos muito próximos, tendo que enfrentar filas de bancos para receber algum tipo de doação, utilizando transporte público precário, ou mesmo tendo que ir a pé ao trabalho pela redução nos horários desse mesmo transporte.

Numa ala temos aqueles que esperam ansiosamente pelo fim da pandemia, para se juntar aos amigos, organizar uma festa e comemorar o fim do isolamento. No outro canto temos pessoas que não sabem se estarão doentes ou vivas até o fim da pandemia, e se tudo der certo, terão que ir à luta para pagar contas, conseguir um novo emprego ou buscar novas fontes de renda.

Antes de finalizar, ressalto que nada tenho contra aqueles que possuem uma boa condição financeira, afinal de contas, muitos gozam hoje o árduo trabalho realizado outrora. No entanto, não consigo conceber a ideia de que estamos no mesmo barco. Continuamos em barcos diferentes, e o que é pior, cada vez mais distantes um do outro.

Publicado por Ralph Neves

Não sei bem me definir...Gosto de escrever, talvez porque gosto muito de ler. Sou curioso e tenho muitas dúvidas, mas não sou cético, porque acredito em muitas coisas e ao mesmo tempo não creio em nada. Muitas vezes penso que sei, e descubro que não sei nada. A frase atribuída a Descartes ajuda a me definir: "Daria tudo que sei pela metade que ignoro". Estou sempre procurando e talvez não encontre, mas o que realmente importa? Certamente é o caminho da busca...

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